Me chamo Miguel Moraes, tenho 6 anos e hoje foi meu primeiro dia na “escola grande”, é assim que chamamos a escola aqui em casa, eu passei muitos dias aguardando isto, mas acredito que minha mãe é quem realmente estava ansiosa e temerosa, houve todo um preparo para o meu primeiro dia, desde março de 2018, minha mãe esteve em quatro escolas diferentes para eu ter este dia.
Existe o grande desafio para mim que sou autista, mas para minha mãe o desafio vai muito além, ela precisou lutar muito para eu ter meu espaço, que se resume em uma pequena carteira em uma sala lotada de crianças ditas “normais”, a luta dela, de fato, começou á alguns anos, foi minha mãe quem me ajudou a vencer a barreira da comunicação, ainda não me comunico muito bem, mas para um autista grave não verbal, hoje estou muito, muito melhor.
Eu realmente não sei o que minha mãe sente com tudo isto, mas hoje tive uma experiência fantástica e quero compartilhar, os pontos positivos e os negativos também, pois o Autismo não é um mundo todo azul e sim uma luta diária de mães e filhos para vencer o preconceito e a desinformação.
É claro que não sou eu aqui escrevendo sobre mim, mas quem escreve fará o máximo para traduzir meus sentimentos e de minha mãe. Iremos falar sobre a luta para conseguir estar em uma escola em outro momento, hoje vamos falar apenas como foi o meu primeiro dia em uma Escola.
Logo que minha mãe soube que minha vaga havia sido disponibilizada em uma escola estadual, ela iniciou os preparativos, tanto materiais quanto emocionais, alguns dias antes ela esteve na escola para me matricular e falar sobre minhas questões, afinal eu preciso de uma atenção diferente, mas quero ser tratado igual todo mundo. A matrícula feita e todos já cientes que um garotinho autista iria iniciar a sua vida escolar lá, minha mãe tomada por ansiedade me levou até uma loja para comprar caderno, lápis, borracha e outros materiais, mas ainda pairava algumas preocupações.
Havia uma preocupação quanto ao meu comportamento, todos devem saber que o autismo esta diretamente ligado aos esteriótipos comportamentais, e minha mãe sabendo disto, por precaução decidiu confeccionar através do projeto Corujinha Azul, o meu cartão de conscientização do autismo, assim eu poderia ser identificado e rapidinho minha mãe estaria lá para me ajudar, posso dizer que meu cartão ficou legal demais e com a minha cara.

Então chegou o grande dia, hoje, uma segunda feira, eu finalmente estava indo para minha “escola grande”, como sempre, eu ao lado de minha mãe, tivemos que aguardar que todas as crianças entrassem, uau eram muitas, tantas que não parecia ter fim, mas você deve se perguntar, “porque esperar todos entrarem?”, vamos lá, eu iria entrar com a minha mãe, mas como autista não é como deficiente físico que se vê, e visto que nenhuma das crianças entra com os pais, seria complicado e confuso explicar para alguém minhas necessidades, Então, após todos entrarem, nós entramos e ficamos esperando a professora ir para sala de aula, mamãe me acompanhou até lá, não sei avaliar o sentimento dela, mas ela estava linda e se despediu com um beijo e foi embora.
Foi tudo mais tranquilo do que esperávamos, apesar que minha mãe tinha se preparado para algo muito mais difícil. Eu estava ansioso para começar a aprender tudo que todos dizem, como ler, escrever, as continhas, mas percebi que as coisas eram um pouquinho diferentes do que eu havia sonhado, a professora distribuiu uma atividade, por sinal, muito legal para os meus coleguinhas de sala, onde haviam imagens com letrinhas para pintar, porém para mim, deu um papel diferente, de cor verde para que eu ficasse rabiscando. Me colocou em uma carteira do ladinho com o papel verde, ela não sabe, mas já aprendi no projeto Corujinha Azul as vogais, eu já sei até elas em libras, meu cognitivo é preservado e consigo aprender, é só ter paciência de me ensinar, acredito que a consciência sobre o que é o autismo, tem que ser estudada por todos da área da Educação, palavras da minha mãe.

Enfim, minha mamãe não demorou muito a chegar, e assim que chegou, perguntou à minha professora porque eu não estava fazendo a mesma atividade dos meus coleguinhas, que respondeu que seria muito difícil para mim, e justificou dizendo que acreditava que eu estava ali para interação social com as outras crianças, mas minha mãe sempre perspicaz respondeu logo que não, eu estou ali para aprender a ler e escrever como qualquer outra criança “normal” da sala, junto com meus coleguinhas .
Apesar de não ter sido exatamente o que todos esperávamos, foi muito bom, estive na escola por um período curto, me adaptando e pude lanchar com meu novo coleguinha, o Gabriel, logo voltarei aqui para contar mais sobre meus dias e quem sabe ajudar alguém a entender que o nosso mundo não é só azul.


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