Quando a escola deixa de ser segura
A escola é, em tese, um dos espaços mais importantes da formação humana. É lá que crianças e adolescentes aprendem não apenas conteúdos curriculares, mas também a conviver com o diferente, a construir identidades e a desenvolver vínculos afetivos. No entanto, para muitos estudantes, esse espaço não é sinônimo de acolhimento — é, pelo contrário, um território de medo, exclusão e sofrimento cotidiano.

O bullying escolar é um fenômeno amplamente documentado nas ciências humanas e sociais e representa uma das formas mais persistentes de violência entre pares. Segundo Lisboa, Braga e Ebert (2009), o bullying pode ser definido como “comportamentos agressivos, intencionais e repetidos, praticados por um ou mais indivíduos contra outro, em situação de desequilíbrio de poder”. Não se trata, portanto, de uma simples briga ou desentendimento passageiro: o que define o bullying é a repetição, a intencionalidade e a assimetria de poder entre agressor e vítima.
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O que é bullying? Definição e características
A palavra bullying tem origem no inglês bully, que significa valentão ou agressor. O termo passou a ser amplamente utilizado a partir dos estudos pioneiros do pesquisador norueguês Dan Olweus, na década de 1970, considerado o pai das pesquisas científicas sobre o tema. Olweus (1993) identificou três critérios fundamentais para caracterizar o bullying:
- Intencionalidade: o agressor age com o propósito deliberado de causar dano.
- Repetição: os comportamentos ocorrem de forma sistemática e não esporádica.
- Desequilíbrio de poder: existe uma assimetria — física, social ou psicológica — entre as partes envolvidas.
Sem a presença desses três elementos, um episódio de agressão pode ser violência, mas não necessariamente bullying. Essa distinção importa do ponto de vista clínico e pedagógico, pois define as estratégias de intervenção mais adequadas.

“O bullying não é uma fase normal do desenvolvimento. É uma forma de violência que exige atenção, prevenção e intervenção sistemática.” — Olweus (1993, adaptado)
Tipos de bullying: como a violência se manifesta
O bullying não possui uma forma única de expressão. Pelo contrário, manifesta-se de maneiras diversas, o que muitas vezes dificulta sua identificação por adultos e educadores. O Ministério da Educação (2022), em sua Cartilha de Prevenção ao Bullying, classifica as principais modalidades da seguinte forma:
Bullying Verbal
É o tipo mais comum e inclui apelidos pejorativos, xingamentos, humilhações públicas, comentários depreciativos sobre aparência, religião, etnia ou desempenho escolar. Por ser praticado muitas vezes de forma velada — em sussurros, risadas ou em momentos sem supervisão de adultos —, o bullying verbal frequentemente passa despercebido.
Bullying Físico
Envolve agressões corporais como empurrões, chutes, socos, beliscões e danos a pertences da vítima. É o tipo mais visível e, por isso, mais facilmente identificado. No entanto, costuma ser precedido por formas verbais e psicológicas de agressão.
Bullying Psicológico
Considerado por muitos especialistas o mais devastador em longo prazo, o bullying psicológico inclui exclusão deliberada de grupos, espalhamento de rumores e boatos, ameaças veladas, manipulação emocional e isolamento social sistemático. Suas marcas são invisíveis aos olhos, mas profundamente sentidas pela vítima.
Cyberbullying (Bullying Virtual)
Com a expansão das redes sociais e do acesso à internet por crianças e adolescentes, o cyberbullying tornou-se uma preocupação crescente. Ele ocorre por meio de mensagens ofensivas, divulgação de fotos ou vídeos humilhantes, criação de perfis falsos e ataques coordenados em plataformas digitais. Sua característica mais perversa é a onipresença: diferentemente do bullying presencial, o virtual não termina quando a vítima sai da escola — ele a segue para casa, para o quarto, para qualquer lugar onde haja um dispositivo conectado.
Consequências do bullying: o que a ciência nos diz
Os impactos do bullying sobre a saúde mental e física das vítimas são amplamente documentados pela literatura científica. Uma revisão sistemática publicada no British Medical Journal identificou associações entre experiências de bullying na infância e o desenvolvimento de ansiedade, depressão, ideação suicida e dificuldades interpessoais na vida adulta (Wolke & Lereya, 2015).
No contexto escolar brasileiro, as consequências mais observadas incluem:
- Baixa autoestima e sentimento de vergonha e inadequação.
- Ansiedade, fobia escolar e recusa em frequentar a escola.
- Queda no rendimento acadêmico e perda de interesse pelo aprendizado.
- Isolamento social e dificuldade em estabelecer vínculos de confiança.
- Depressão e, em casos graves, comportamentos autolesivos.
É importante destacar que as consequências não se restringem às vítimas. Pesquisas indicam que os agressores também apresentam maior risco de envolvimento em comportamentos antissociais, dificuldades de relacionamento e problemas com a lei na vida adulta (Farrington, 1993). Até mesmo as testemunhas — aqueles que presenciam o bullying sem participar diretamente — relatam sintomas de ansiedade e culpa.
“O bullying machuca, mesmo quando parece ‘só uma brincadeira’. Palavras, apelidos, empurrões ou deixar alguém de lado podem doer muito no coração de quem passa por isso.” — Sem Bullying na Escola (2025)
Como prevenir o bullying: o papel da escola, da família e da sociedade

A prevenção ao bullying é uma responsabilidade coletiva. Não basta punir o agressor após o fato — é necessário construir uma cultura escolar de respeito, empatia e pertencimento antes que a violência ocorra. Segundo Fante (2005), programas eficazes de combate ao bullying devem envolver toda a comunidade escolar: alunos, professores, gestores e famílias.
Entre as estratégias mais recomendadas pela literatura especializada, destacam-se:
- Educação socioemocional: desenvolver habilidades como empatia, autorregulação emocional e resolução de conflitos desde os primeiros anos escolares.
- Ambiente de escuta ativa: criar canais seguros e confidenciais para que vítimas e testemunhas possam relatar situações de bullying sem medo de retaliação.
- Formação continuada de professores: capacitar educadores para identificar sinais de bullying e intervir de forma adequada.
- Envolvimento familiar: incluir as famílias no processo de conscientização e no acompanhamento de comportamentos fora da escola.
- Projetos artísticos e culturais: como o promovido pela Uninove, que utiliza o desenho e a expressão criativa como ferramentas de reflexão e empoderamento.
O projeto Sem Bullying na Escola exemplifica como ações pontuais, quando bem estruturadas, podem gerar impactos reais. Ao convidar crianças a pesquisar, refletir e criar sobre o tema, o projeto transforma alunos em agentes ativos da prevenção — e não apenas receptores passivos de informação.
O que fazer ao presenciar ou sofrer bullying?
Uma das maiores barreiras para o enfrentamento do bullying é o silêncio. Vítimas frequentemente não denunciam por vergonha, medo de represálias ou por acreditar que nada vai mudar. Testemunhas, por sua vez, muitas vezes se calam por temer se tornar o próximo alvo.
Quebrar essa cultura do silêncio é fundamental. Algumas orientações práticas:
- Fale com um adulto de confiança: professor, coordenador, familiar ou qualquer pessoa que possa ajudar.
- Registre os episódios: data, local, o que aconteceu e quem estava presente.
- Procure a direção da escola: ela é responsável por coordenar as ações de proteção ao aluno.
- Se necessário, acione a Unidade Regional de Ensino (URE) ou a Ouvidoria da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo — disponível na plataforma Fala.SP (fala.sp.gov.br) ou pelo telefone (11) 2075-4215.
- Nunca fique calado: o silêncio alimenta a violência.
“Se você está passando por algo difícil, fale com um adulto de confiança. Você não está sozinho(a).” — Sem Bullying na Escola (2025)
Conclusão: a escola que queremos construir

Falar sobre bullying é falar sobre o tipo de sociedade que queremos ser. Uma escola que tolera a exclusão, o apelido cruel e a agressão — ainda que velada — está falhando em sua missão mais fundamental: a de educar para a cidadania.
Projetos como o desenvolvido pela Uninove em parceria com a Escola Estadual Prof. Nair Hiroko Konno Hashimoto demonstram que é possível — e necessário — incluir a prevenção ao bullying no cotidiano escolar de forma lúdica, participativa e transformadora. Quando uma criança pega um lápis e desenha o que entende por respeito, ela não está apenas expressando um conceito: ela está internalizando um valor.
Que cada escola se torne um lugar onde toda criança possa aprender sem medo. Que cada aluno encontre, em seus colegas e professores, não ameaças — mas aliados.
“Juntos podemos fazer da escola um lugar de respeito e amizade.” — Sem Bullying na Escola (2025)
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Cartilha de prevenção ao bullying. Brasília, DF: MEC, 2022.
FANTE, Cléo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. Campinas: Verus Editora, 2005.
FARRINGTON, David P. Understanding and preventing bullying. Crime and Justice, v. 17, p. 381-458, 1993.
LISBOA, Cilene S. M.; BRAGA, Lísia Lopes; EBERT, Gabriela. Bullying: conhecer e intervir. São Paulo: Artmed, 2009.
OLWEUS, Dan. Bullying at school: what we know and what we can do. Oxford: Blackwell Publishers, 1993.
WOLKE, Dieter; LEREYA, Suzet Tanya. Long-term effects of bullying. Archives of Disease in Childhood, v. 100, n. 9, p. 879-885, 2015.
SEM BULLYING NA ESCOLA. Projeto de extensão — Psicologia Uninove, Unidade Santo Amaro. Disponível em: https://sembullyingnaescola.wordpress.com. Acesso em: set. 2025.


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