De elogio a insulto: como a palavra “esquisito” foi distorcida pela história — e por que isso afeta pessoas autistas até hoje

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O termo que nasceu significando “raro” e “especial” acabou se tornando sinônimo de estranheza. Especialistas, filósofos e momentos históricos ajudam a explicar como a sociedade aprendeu a rejeitar aquilo que foge do padrão.

Por séculos, pessoas com comportamentos considerados diferentes foram chamadas de “esquisitas”.

A palavra aparece em salas de aula, ambientes de trabalho, relações familiares e até diagnósticos sociais silenciosos. Para pessoas autistas, ela costuma surgir cedo: nos movimentos repetitivos, no jeito diferente de falar, no hiperfoco, na dificuldade de seguir códigos sociais invisíveis ou na intensidade emocional.

Mas existe uma contradição histórica pouco conhecida.

Originalmente, “esquisito” não era ofensa.

Segundo estudos etimológicos presentes em obras como o Dictionnaire Historique de la Langue Française, do linguista Alain Rey, a palavra deriva do latim exquisitus, termo usado para designar algo “cuidadosamente escolhido”, “raro”, “refinado” ou “especial”.

Aquilo que era exquisitus não era defeituoso.

Era extraordinário.

Quando o diferente passou a incomodar

Historiadores da linguagem apontam que a mudança de significado aconteceu gradualmente durante a Idade Média e se consolidou na modernidade europeia. O raro passou a ser associado ao incomum; o incomum, ao desconforto; e o desconforto, ao desvio.

Essa transformação não aconteceu apenas na linguagem.

Ela moldou a própria maneira como sociedades passaram a enxergar pessoas diferentes.

O filósofo francês Michel Foucault, em sua obra clássica História da Loucura (1961), descreve como o Ocidente criou mecanismos sociais para separar aquilo que considera “normal” daquilo que considera “desviante”.

“A sociedade define e controla aquilo que considera aceitável”, defendia Foucault ao analisar a exclusão histórica de pessoas consideradas diferentes.

Já o filósofo e médico Georges Canguilhem, em O Normal e o Patológico (1943), argumentava que a ideia de “normalidade” não é fixa nem natural — ela é construída historicamente.

Em outras palavras: o que hoje é chamado de estranho talvez seja apenas uma diferença que a sociedade ainda não aprendeu a compreender.

Neurodiversidade: a ciência começa a mudar o olhar

Nas últimas décadas, pesquisadores e ativistas passaram a defender o conceito de neurodiversidade — ideia de que cérebros humanos funcionam de maneiras diferentes e que essas diferenças fazem parte da diversidade natural da espécie humana.

O termo ganhou força a partir dos anos 1990, principalmente com os trabalhos da socióloga australiana Judy Singer.

Hoje, muitos especialistas defendem que condições como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) não devem ser vistas apenas sob a lógica da deficiência, mas também como formas diferentes de percepção, cognição e interação com o mundo.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 1 em cada 100 crianças esteja dentro do espectro autista. Já dados recentes do CDC, centro de controle epidemiológico dos Estados Unidos, apontam prevalência ainda maior: aproximadamente 1 em cada 36 crianças.

Mesmo com o avanço científico, o preconceito continua sendo uma das maiores barreiras enfrentadas por pessoas autistas.

Os “esquisitos” que mudaram o mundo

A história da humanidade é marcada justamente por pessoas consideradas estranhas em seu próprio tempo.

Albert Einstein é um dos exemplos mais citados.

Embora nunca tenha recebido diagnóstico formal — algo impossível dentro dos critérios médicos da época — pesquisadores e biógrafos apontam características compatíveis com o espectro autista: hiperfoco extremo, dificuldades sociais, fala tardia e intensa fixação por padrões matemáticos e físicos.

O físico alemão revolucionou a ciência moderna com a Teoria da Relatividade e recebeu o Nobel de Física de 1921 pela explicação do efeito fotoelétrico, descoberta fundamental para tecnologias modernas.

O biógrafo Walter Isaacson relata que Einstein repetia frases para si mesmo durante a infância e demonstrava comportamentos vistos como excêntricos para os padrões sociais da época.

Funny Burrowing owl Athene cunicularia tilts its head outside its burrow on Marco Island, Florida

Ainda assim, foi justamente sua maneira incomum de enxergar o universo que transformou a física para sempre.

Décadas depois, outro nome associado publicamente ao espectro autista ganharia projeção mundial: Elon Musk.

Fundador da Tesla, SpaceX e Neuralink, Musk revelou em 2021, durante participação no programa Saturday Night Live (SNL), que possui síndrome de Asperger, condição atualmente incluída dentro do Transtorno do Espectro Autista.

“Eu sou a primeira pessoa com Asperger a apresentar o SNL… ou pelo menos a primeira a admitir isso”, declarou o empresário diante de milhões de espectadores.

Musk também ironizou sua própria dificuldade social durante o programa:

“Vocês acharam mesmo que eu seria um cara normal e tranquilo?”

Especialistas apontam que a fala teve impacto simbólico importante para a visibilidade do autismo em ambientes corporativos e tecnológicos.

O problema nunca foi a diferença

Pesquisadores contemporâneos vêm questionando a ideia de que pessoas autistas possuem “déficit” de empatia ou sociabilidade.

O sociólogo Damian Milton, da Universidade de Kent, desenvolveu em 2012 o conceito de “problema da dupla empatia”, defendendo que a dificuldade de comunicação entre autistas e não autistas é mútua — e não uma falha exclusiva da pessoa autista.

Ou seja: muitas vezes o isolamento social nasce menos da diferença em si e mais da incapacidade coletiva de compreender outras formas de existência.

A cientista Temple Grandin, autista diagnosticada e referência mundial em comportamento animal, costuma resumir essa ideia em uma frase que se tornou símbolo do movimento da neurodiversidade:

“O mundo precisa de diferentes tipos de mente.”

Grandin revolucionou práticas de manejo animal justamente porque percebia detalhes sensoriais ignorados pela maioria das pessoas.

Aquilo que muitos chamariam de “esquisitice” tornou-se contribuição científica.

Ressignificar o “esquisito”

Para especialistas em inclusão e neurodiversidade, recuperar o significado original da palavra pode representar mais do que uma curiosidade linguística.

Pode ser um ato simbólico de reconstrução da autoestima.

Porque talvez o “esquisito” nunca tenha sido o defeito que ensinaram tantas pessoas a acreditar.

Talvez “esquisito” sempre tenha significado aquilo que foge do comum justamente porque carrega algo raro.

Algo singular.

Algo que não existe em série.

E a própria história mostra que, muitas vezes, foram exatamente essas pessoas — vistas como diferentes, inadequadas ou estranhas — que ajudaram a transformar o mundo.

Referências e fontes utilizadas

Etimologia e história da palavra “esquisito”

Dictionnaire Historique de la Langue Française – Alain Rey
Obra de referência sobre etimologia francesa e latina, explicando a origem de exquisitus.
https://www.lerobert.com/robert-dictionnaires-historiques

Online Etymology Dictionary – “Exquisite”
Explica a origem latina exquirere (“buscar cuidadosamente”).
https://www.etymonline.com/word/exquisite

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa
Referência etimológica do português para o termo “esquisito”.
https://houaiss.uol.com.br/

Filosofia, normalidade e exclusão social

FOUCAULT, Michel — História da Loucura
Obra clássica sobre como sociedades passaram a definir e excluir aquilo considerado “anormal”.
https://monoskop.org/images/3/39/Foucault_Michel_Historia_da_Loucura.pdf

CANGUILHEM, Georges — O Normal e o Patológico
Discussão filosófica e histórica sobre os conceitos de normalidade.
https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/7590542/mod_resource/content/1/Canguilhem%20-%20O%20Normal%20e%20o%20Patol%C3%B3gico.pdf

NIETZSCHE, Friedrich
Frase popularmente atribuída ao autor: “E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não conseguiam ouvir a música.”
Discussão sobre autenticidade, individualidade e ruptura com padrões sociais.
https://plato.stanford.edu/entries/nietzsche/

Neurodiversidade e autismo

JUDY SINGER — Neurodiversity: The Birth of an Idea
Uma das principais formuladoras do conceito de neurodiversidade.
https://neurodiversity2.blogspot.com/p/what.html

Organização Mundial da Saúde (OMS) — Autism Spectrum Disorders
Dados globais sobre prevalência do autismo.
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/autism-spectrum-disorders

CDC (Centers for Disease Control and Prevention)
Estatísticas recentes sobre prevalência do TEA.
https://www.cdc.gov/autism/data-research/index.html

Damian Milton — The Double Empathy Problem
Estudo sobre dificuldades mútuas de comunicação entre autistas e não autistas.
https://kar.kent.ac.uk/62639/

Albert Einstein

Nobel Prize — Albert Einstein
Informações oficiais sobre o Nobel de Física de 1921.
https://www.nobelprize.org/prizes/physics/1921/einstein/facts/

Walter Isaacson — Einstein: Sua Vida, Seu Universo
Biografia detalhada sobre a infância, personalidade e comportamentos considerados excêntricos de Einstein.
https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535914844/einstein

Scientific American — Was Einstein on the Autism Spectrum?
Discussão científica sobre hipóteses retrospectivas envolvendo TEA em Einstein.
https://www.scientificamerican.com/article/autism-and-genius/

Elon Musk e autismo

CBS News — Elon Musk reveals he has Asperger’s syndrome on SNL
https://www.cbsnews.com/news/elon-musk-aspergers-saturday-night-live/

Axios — Elon Musk says he has Asperger’s syndrome during SNL monologue
https://www.axios.com/2021/05/09/elon-musk-hosts-snl-key-takeaways-saturday-night-live

BBC News — Elon Musk says he has Asperger’s syndrome
https://www.bbc.com/news/world-us-canada-57045770

Temple Grandin

Livro: Thinking in Pictures — Temple Grandin
Relato autobiográfico sobre percepção autista.
https://www.penguinrandomhouse.com/books/94276/thinking-in-pictures-by-temple-grandin/

Temple Grandin Official Website
https://www.templegrandin.com/

TED Talk — The World Needs All Kinds of Minds
Palestra histórica de Temple Grandin sobre autismo e neurodiversidade.
https://www.ted.com/talks/temple_grandin_the_world_needs_all_kinds_of_minds

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