USO DE TELAS ANTES DE AULAS E TERAPIAS: POR QUE O IMPACTO É TÃO GRANDE EM CRIANÇAS, ESPECIALMENTE COM TRANSTORNOS DO NEURODESENVOLVIMENTO?
Nos últimos anos, o uso de telas na infância se tornou parte da rotina familiar. Celulares e tablets passaram a ocupar funções variadas: entretenimento rápido, distração em momentos de espera e até mecanismos de acalmar a criança. Mas um ponto específico tem chamado a atenção de profissionais que trabalham com desenvolvimento infantil: o impacto significativo do uso de telas imediatamente antes de atividades estruturadas — como terapias, aulas, tarefas ou atendimentos clínicos.
Esse efeito é ainda mais intenso em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH e outros transtornos do neurodesenvolvimento. Entender esse fenômeno é fundamental para melhorar engajamento, reduzir conflitos e favorecer a aprendizagem.

O QUE ACONTECE NO CÉREBRO DURANTE O USO DE TELAS?
Conteúdos digitais, especialmente vídeos rápidos, jogos ou plataformas com recompensas constantes, estimulam o cérebro por meio de:
• imagens de alta velocidade
• sons intensos e repetitivos
• reforços imediatos (pontos, cores, trocas rápidas de cena)
Esse conjunto gera liberação rápida de dopamina, neurotransmissor associado ao prazer e à motivação. Na prática, o cérebro infantil entra em um estado de hiperestimulação. É um ambiente extremamente previsível e reforçador: basta tocar para algo acontecer. Para muitas crianças, é uma zona de conforto sensorial.
QUANDO A TELA É RETIRADA, O QUE MUDA?
A saída abrupta da tela cria um contraste grande entre:
• o alto nível de estímulos que estavam presentes
• a demanda cognitiva e emocional da tarefa seguinte (esperar, ouvir, focar, transitar de atividade)
Esse “salto” pode causar:
• irritabilidade
• choro
• oposição
• dificuldade de engajamento
• aumento de comportamentos repetitivos ou desorganização emocional
Isso não significa que a criança esteja “viciada” ou que telas sejam proibidas. Significa que a transição é fisiológica, neurológica e comportamentalmente difícil. Para crianças com TEA e TDAH, isso se intensifica por questões próprias do desenvolvimento:
• menor tolerância à frustração
• dificuldades naturais de mudança de foco (rigidez cognitiva, no caso do TEA)
• funções executivas vulneráveis (planejamento, controle inibitório, inícios de tarefas)
• sensibilidade sensorial aumentada
O resultado é que o cérebro, acostumado ao estímulo digital rápido, encontra dificuldade em regular-se rapidamente para um ambiente de aprendizagem.
POR QUE ISSO PREJUDICA TERAPIAS E AULAS?
Atividades clínicas e educacionais exigem exatamente o oposto do que a tela estimula:
• atenção sustentada
• resposta a instruções mais lentas
• flexibilidade cognitiva
• controle de impulsos
• capacidade de esperar
Quando a criança chega logo após usar uma tela, ela chega em “modo acelerado”, mas a atividade exige “modo regulado”. Esse descompasso prejudica o início da sessão, reduz o aproveitamento e aumenta o custo emocional da criança e do profissional.
SOLUÇÕES PRÁTICAS PARA REDUZIR O IMPACTO
A boa notícia é que ajustes simples podem transformar a experiência. Recomenda-se:
• evitar telas por 30 a 60 minutos antes de compromissos estruturados
• usar avisos visuais e auditivos antes de encerrar a tela (contagem regressiva clara)
• substituir telas perto da sessão por atividades de regulação (massinha, livros, encaixes, desenhos lentos)
• se a tela for inevitável, escolher conteúdos calmos, com menos estímulos sensoriais
• estruturar uma rotina previsível, com “hora de tela” bem delimitada
• alinhar as regras entre família e terapeutas para manter consistência
Essas alternativas ajudam o cérebro a “desacelerar” e mitigam o choque entre contextos sensoriais tão diferentes.
CAMINHO PARA MELHOR APRENDIZAGEM E REGULAÇÃO
Regular transições não é apenas sobre reduzir conflitos, mas sobre potencializar desenvolvimento. Quando o início da sessão é mais calmo, a capacidade de atenção aumenta, o comportamento melhora e a criança aproveita mais plenamente o trabalho terapêutico ou pedagógico.
A questão não é demonizar a tecnologia, mas reconhecer seus efeitos imediatos no funcionamento infantil e organizar o ambiente para que ela não comprometa o que vem depois.


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