Na primeira infância, discutir o uso de telas é mais do que contar minutos. É observar quais oportunidades de movimento, interação, linguagem e descoberta estão sendo substituídas.
Talvez a pergunta mais importante não seja apenas “quanto tempo meu filho passa no celular?”, mas “quantas oportunidades de interação, movimento, descoberta e brincadeira essa tela está ocupando?”
Quando pensamos em uma criança pequena, pensamos em movimento. Ela corre, sobe, desce, cai, levanta, carrega, empilha, derruba, abre, fecha, toca, observa e experimenta. Também chama o adulto, aponta, protesta, pede ajuda, espera uma resposta e tenta novamente.
Para um adulto, muitas dessas ações parecem apenas brincadeira. Para a criança, são oportunidades de desenvolvimento. Na primeira infância, aprender não significa somente receber informação. A criança aprende agindo sobre o ambiente, movimentando o corpo, manipulando objetos, observando consequências, resolvendo pequenos problemas e interagindo com outras pessoas.
Por isso, discutir o uso de telas apenas contando minutos é insuficiente. Também precisamos perguntar: o que deixou de acontecer enquanto a criança estava diante da tela?
IDEIA CENTRAL A tela não age no vazio. Seus efeitos dependem da duração, do conteúdo, do contexto, da presença do adulto e, sobretudo, das experiências que ela desloca.
O custo de oportunidade do tempo de tela
Um estudo longitudinal de Putnick e colaboradores acompanhou 3.894 crianças entre 12 e 36 meses para investigar se o tempo de tela deslocava experiências como leitura com adultos e brincadeira com outras crianças.

Após os ajustes estatísticos, o maior tempo de tela não apresentou associação direta com atraso do desenvolvimento. Esse cuidado é importante: o estudo não autoriza dizer que a tela, por si só, causou atraso.
Entretanto, maior exposição às telas esteve associada a menos brincadeira com outras crianças. Essa redução apareceu como um caminho indireto entre mais tempo de tela e maior probabilidade de dificuldades do desenvolvimento aos 36 meses, inclusive em comunicação e nos domínios motor fino, motor grosso e pessoal-social. O mesmo padrão de deslocamento não foi observado para a leitura com adultos.
O resultado sugere uma interpretação mais interessante do que o simples ‘tela faz mal’: parte da relação entre exposição digital e desenvolvimento pode envolver aquilo que a tela substitui. Podemos chamar isso, de maneira didática, de custo de oportunidade desenvolvimental.
Uma hora diante da tela não é apenas uma hora de conteúdo digital. Dependendo da rotina, pode ser uma hora que deixou de estar disponível para conversar, movimentar-se, brincar com outra criança, desenhar, manipular objetos, ouvir uma história ou descobrir o que fazer sem receber entretenimento pronto.
Isso não significa que todo minuto de tela seja prejudicial. Significa apenas que o tempo da infância é finito, e a maneira como ele é ocupado importa.
Nem todo tempo sentado é igual
Em 2026, Christian e colaboradores analisaram dados de 1.073 crianças entre 2 e 5 anos. Os pesquisadores separaram diferentes comportamentos ao longo do dia, incluindo sono, atividade física, brincadeira energética, tempo de tela e quiet play: brincadeiras tranquilas sem tela, como livros, atividades artísticas e jogos realizados sentados.
Na modelagem estatística, realocar dez minutos do tempo de tela para brincadeira tranquila esteve associado a melhores escores globais de dificuldades socioemocionais. O movimento contrário, substituindo brincadeira tranquila ou sono por tela, esteve associado a escores piores.
ATENÇÃO METODOLÓGICA Os pesquisadores não retiraram fisicamente dez minutos de celular das crianças. Foi uma análise estatística de realocação do tempo, portanto o estudo não estabelece uma relação direta de causa e efeito.
Ainda assim, o achado ilumina uma diferença essencial: uma criança sentada assistindo a vídeos e uma criança sentada desenhando, construindo ou folheando um livro não estão necessariamente vivendo experiências equivalentes.
Mais estímulos não significam mais desenvolvimento
Existe uma ideia intuitiva bastante sedutora: quanto mais estímulos oferecermos à criança, melhor. A ciência do desenvolvimento, porém, pede mais cuidado.
Em um estudo experimental, Dauch e colaboradores observaram 36 crianças de 18 a 30 meses brincando em duas condições: uma com quatro brinquedos disponíveis e outra com dezesseis. Quando havia apenas quatro brinquedos, as crianças permaneceram mais tempo envolvidas com cada objeto e os exploraram de maneiras mais variadas.
É um estudo pequeno e não deve virar a regra simplista de que toda criança precisa ter apenas quatro brinquedos. O que ele mostra é mais modesto e útil: aumentar a quantidade de estímulos disponíveis ao mesmo tempo não garante uma brincadeira mais rica. Em algumas situações, reduzir recursos concorrentes favorece uma exploração mais prolongada e criativa.

Isso ajuda a explicar por que uma caixa, alguns potes, blocos, tecidos, água, areia, folhas, massinha, lápis ou objetos seguros do cotidiano podem render experiências tão interessantes. Uma caixa de papelão não canta, não pisca e não entrega uma resposta pronta. A criança precisa fazer alguma coisa com ela. Hoje pode ser uma casa; amanhã, um carro; depois, uma cama para a boneca.
O objeto oferece pouco pronto e, justamente por isso, pode deixar muito espaço para a ação da criança.
Quando o brinquedo fala, a interação pode mudar
Anna Sosa realizou um experimento com 26 díades de pais e bebês entre 10 e 16 meses, comparando momentos de brincadeira com brinquedos eletrônicos, brinquedos tradicionais e livros.
Durante o uso de brinquedos eletrônicos, foram observados menos palavras produzidas pelos adultos, menos turnos de conversação, menos respostas verbais dos pais e, em algumas comparações, menos vocalizações das crianças do que durante a utilização de livros ou brinquedos tradicionais.
O estudo não demonstra que brinquedos eletrônicos provoquem atraso de linguagem. Ele mostra que o tipo de brinquedo pode alterar a quantidade e a qualidade da interação comunicativa que acontece durante a brincadeira.
Isso importa porque a linguagem não se desenvolve apenas pela quantidade de palavras ouvidas. A criança vocaliza e alguém responde. Olha e alguém acompanha seu olhar. Aponta e alguém nomeia. Tenta falar e outra pessoa interpreta. A comunicação humana é construída em trocas.
A tela do adulto também entra nessa conversa
Quando discutimos telas na infância, é comum olhar apenas para o aparelho colocado na mão da criança. Mas existe outro celular que precisa entrar na conversa: o que permanece na mão do adulto.
Uma revisão sistemática brasileira de Nunes e colaboradores analisou 19 estudos sobre interações entre criança, adulto e tela. Os resultados reforçam que a mediação do adulto é fundamental e que o uso apropriado da tecnologia pode favorecer experiências positivas. A ausência de mediação, por outro lado, pode favorecer usos problemáticos.

Nesse campo aparece o conceito de tecnoferência, usado para descrever situações em que dispositivos tecnológicos interrompem ou interferem nas interações entre as pessoas. É fácil visualizar: a criança mostra algo, mas o adulto olha para o telefone; ela chama, mas a resposta demora; ela aponta, mas ninguém acompanha seu olhar.
Não é preciso demonizar o celular para reconhecer que uma interação que não aconteceu também é um evento relevante para o desenvolvimento.
Não importa apenas quanto. Importa como
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no JAMA Pediatrics em 2024 reuniu 100 estudos e 176.742 participantes menores de seis anos. Os resultados mostraram que diferentes contextos de uso apresentam associações diferentes.
Maior exposição a programas e televisão ligada ao fundo esteve associada a piores resultados cognitivos. Conteúdo inadequado para a idade e uso de telas pelo cuidador durante rotinas da criança estiveram associados a piores resultados psicossociais. Por outro lado, o uso conjunto da tela com o cuidador apresentou associação positiva com resultados cognitivos.
Grande parte da evidência incluída é observacional. Portanto, os achados não devem ser traduzidos como relações simples de causa e efeito. A conclusão responsável é outra: tipo de conteúdo, contexto, finalidade e presença do adulto importam, além da duração da exposição.
Uma videochamada com a avó, com um adulto participando da conversa, não é desenvolvimentalmente equivalente a permanecer sozinho diante de uma sequência automática de vídeos. Colocar todas essas experiências sob o mesmo rótulo de ‘tempo de tela’ empobrece a discussão.
Reduzir telas pode ajudar?
Estudos observacionais mostram associações, mas têm limitações para estabelecer causalidade. Por isso, é relevante observar o que acontece quando as famílias recebem apoio estruturado para mudar o uso de telas.
Em 2026, Machell e colaboradores publicaram uma revisão sistemática e meta-análise com ensaios clínicos randomizados de intervenções voltadas a pais de crianças menores de seis anos. Foram incluídos dez estudos; oito deles, com 1.776 participantes, forneceram dados para pelo menos uma das meta-análises.
As intervenções reduziram o tempo de tela e também produziram reduções em problemas socioemocionais e comportamentos externalizantes. Havia, porém, poucos estudos sobre atividade física, cognição, índice de massa corporal e habilidades motoras, enquanto os resultados relacionados ao sono foram heterogêneos.

Isso não significa que diminuir telas melhore automaticamente todas as áreas do desenvolvimento. A evidência permite uma afirmação mais sóbria: intervenções familiares conseguem modificar o uso de telas e podem beneficiar alguns indicadores socioemocionais e comportamentais.
O que colocar no lugar do celular?
Mandar uma família simplesmente ‘tirar o celular’ é fácil. O desafio costuma aparecer cinco minutos depois. A substituição precisa caber na vida real e não exige uma brinquedoteca cara nem uma agenda repleta de atividades pedagógicas.

O relatório The Power of Play, da Academia Americana de Pediatria, destaca a brincadeira adequada ao desenvolvimento com pais e pares como oportunidade para competências sociais, emocionais, cognitivas e linguísticas, além de autorregulação e funções executivas.
Na prática, a troca pode começar com experiências simples:
- Água e recipientes: encher, esvaziar, comparar, transferir e derramar.
- Bola: correr, perseguir, lançar, esperar, imitar e compartilhar.
- Papel e lápis: experimentar movimentos e observar o resultado.
- Almofadas: construir cabanas ou criar pequenos percursos motores.
- Caixas, potes e colheres: inventar usos, brincar de faz de conta e resolver problemas.
- Rotina da casa: separar roupas, regar uma planta, ajudar em uma receita e procurar objetos.
- Presença compartilhada: cantar, dançar, contar histórias, conversar e brincar com outras crianças.
- Tempo não programado: permitir alguns minutos de tédio para que a criança descubra o que fazer.
PARA LEMBRAR Não é necessário preencher cada segundo da infância. A brincadeira também nasce do espaço disponível para inventar o que fazer.
O que dizem as diretrizes
A Organização Mundial da Saúde recomenda olhar para as 24 horas da criança considerando conjuntamente movimento, comportamento sedentário e sono. Para bebês menores de um ano e para crianças de um ano, o tempo de tela sedentário não é recomendado. Aos dois anos, a orientação é de no máximo uma hora por dia, e menos é melhor. Entre três e quatro anos, permanece o limite de até uma hora.
A OMS também recomenda substituir parte do tempo sedentário de tela por brincadeira ativa e valorizar atividades sedentárias sem tela realizadas com o cuidador, como leitura, histórias, canto e quebra-cabeças.
No Brasil, as recomendações são igualmente restritivas, embora os cortes etários não sejam idênticos. Em documento de 2025, a Sociedade Brasileira de Pediatria orienta evitar o uso precoce, excessivo e prolongado; não recomenda aparelhos digitais para menores de 2 a 3 anos e indica evitar exposição superior a 30 a 60 minutos por dia entre 3 e 6 anos, sempre com supervisão. A entidade também recomenda não usar telas para acalmar birras ou choros e incentivar brincadeiras ao ar livre, contato com a natureza e convivência familiar sem dispositivos.
O guia federal Crianças, Adolescentes e Telas, publicado em 2025, também enfatiza que crianças pequenas aprendem explorando o mundo e construindo relações seguras e afetivas com adultos e outras crianças.
As diferenças entre diretrizes mostram que não devemos transformar um número exato de minutos em uma fronteira mágica entre ‘seguro’ e ‘perigoso’. Existe um consenso mais importante: quanto menor a criança, mais precisamos proteger seu tempo de interação, movimento, sono, exploração e brincadeira presencial.
Sem alarmismo, mas também sem ingenuidade
Não precisamos dizer que o celular ‘destrói o cérebro’, que cada minuto de tela mata neurônios ou que toda dificuldade decorre de uma suposta ‘enxurrada de dopamina’. Essas simplificações assustam famílias e enfraquecem uma discussão que já possui argumentos científicos suficientes.
A política da Academia Americana de Pediatria sobre ecossistemas digitais, atualizada em 2026, reconhece que ambientes concebidos para maximizar engajamento e comercialização podem prolongar o uso e deslocar comportamentos saudáveis, como movimento e sono. Ao mesmo tempo, reconhece que recursos digitais construídos e utilizados de maneira apropriada ao desenvolvimento podem apoiar aprendizagem e bem-estar.
Esse equilíbrio importa. O problema não é a existência da tecnologia. O problema surge quando ela ocupa sistematicamente o lugar de experiências das quais a criança pequena também precisa.
Também é importante não colocar no mesmo grupo o consumo digital passivo e indiscriminado e a tecnologia usada intencionalmente para comunicação, acessibilidade, aprendizagem ou participação. Mais uma vez: o contexto importa.
Antes de entregar o celular, faça outra pergunta
Talvez tenhamos passado tempo demais perguntando ‘o que o celular pode fazer com meu filho?’. Existe outra pergunta igualmente importante: o que meu filho poderia estar fazendo se o celular não estivesse aqui agora?

Talvez estivesse correndo, conversando ou tentando encaixar uma peça pela décima vez. Talvez estivesse brincando com outra criança. Talvez estivesse reclamando de tédio e, alguns minutos depois, inventando alguma coisa. Talvez estivesse descobrindo que a água escorre, que a areia muda de forma, que uma torre cai, que uma bola rola e que outra criança também quer o brinquedo.
Isso tudo também é aprendizagem.
Não precisamos retirar a tecnologia da infância. Precisamos impedir que ela ocupe tanto espaço que a própria infância fique sem espaço para acontecer.
Antes de entregar o celular, pergunte: quantas oportunidades de interação, movimento, descoberta e brincadeira essa tela está ocupando agora?
Referências principais
- Mallawaarachchi, S. et al. (2024). Early Childhood Screen Use Contexts and Cognitive and Psychosocial Outcomes: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Pediatrics, 178(10), 1017-1026. DOI: 10.1001/jamapediatrics.2024.2620.
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- Munzer, T. et al.; American Academy of Pediatrics (2026). Digital Ecosystems, Children, and Adolescents: Policy Statement. Pediatrics, 157(2), e2025075320. DOI: 10.1542/peds.2025-075320.
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- Sociedade Brasileira de Pediatria (2025). Primeira Infância #Sem Telas #Mais Saúde. Documento Científico nº 04, Grupo de Trabalho de Saúde na Era Digital, Gestão 2025-2028.
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