Por Georgia Gonçalves, fundadora da Casa do Corujinha.
A saúde de uma mãe precisa ter lugar na rotina de cuidados. Neste Outubro Rosa, quero falar sobre o apoio que torna isso possível, durante todo o ano.
Sou mãe atípica e fundadora da Casa do Corujinha. Quando pergunto quem está cuidando da saúde das mães, eu também estou nessa pergunta. Amo meus filhos e acredito no trabalho que construímos com as famílias. Ainda assim, preciso lembrar que a minha saúde também merece atenção.
Penso na agenda ocupada pelas terapias, pela escola e pelas consultas dos filhos. Em que momento entram as necessidades dessa mulher? Pesquisas com mães de crianças autistas ajudam a compreender como o cuidado concentrado em uma pessoa pode deixar pouco espaço para a própria vida.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos de câncer de mama feminina no Brasil em 2026. No Outubro Rosa, quero aproximar essa discussão da realidade das mães atípicas: falar de detecção precoce exige olhar também para as condições que cada mulher tem de chegar ao atendimento.
Para quem não tem com quem deixar o filho, receber um lembrete sobre exames pode não resolver o problema. Por isso, a pergunta que faço às famílias, aos profissionais e às instituições é concreta: o que podemos assumir para que essa mãe consiga cuidar de si?
Quando a saúde da mãe fica para depois
Um estudo de Jakelinne Reis Sousa Vilanova e colaboradores, publicado em 2022 na Revista Gaúcha de Enfermagem, investigou a sobrecarga de mães de crianças autistas. Entre as 51 participantes da etapa quantitativa, 64,7% disseram sentir-se sobrecarregadas e 70,6% afirmaram cuidar sozinhas dos filhos. Nas entrevistas, o cuidado solitário e os deslocamentos para atendimentos apareceram entre as dificuldades. Esses percentuais descrevem a amostra estudada, não todas as mães brasileiras.
A pesquisa de Aislany Warlla Nunes Luna e colaboradoras, publicada em 2023 na Revista de Enfermagem da UFPI, ouviu 29 mães de crianças autistas. Elas relataram necessidades de cuidado consigo que encontravam pouco espaço na rotina. As autoras discutiram a possibilidade de os serviços que atendem as crianças oferecerem acolhimento e oportunidades de autocuidado às mães durante o tempo de espera.
Na Coreia do Sul, Ji-Hwan Kim e colaboradores analisaram um levantamento com 1.903 mães de filhos com deficiências do desenvolvimento. Entre as 429 que não haviam participado do programa nacional de avaliações de saúde nos dois anos anteriores, 38% citaram falta de tempo e 23,1% disseram não ter com quem deixar os filhos. Outras 29,4% haviam feito somente avaliações privadas; era possível indicar mais de uma razão. Publicado em 2026 na BMC Health Services Research, o estudo também analisou registros de saúde e identificou menor participação dessas mães no rastreamento do câncer de mama do que na população feminina geral, após considerar idade e renda.
Trago esses estudos porque mostram dificuldades que precisam ser consideradas quando orientamos uma mãe a cuidar de si. Eles envolveram populações e contextos diferentes e não permitem calcular a frequência dessas dificuldades entre todas as mães atípicas no Brasil. Também não demonstram que a maternidade atípica cause câncer de mama. O que documentam é sobrecarga e dificuldade de acesso ao cuidado.
Minha leitura é que uma orientação de saúde precisa vir acompanhada da pergunta sobre como torná-la viável. Dizer a uma mulher que ela precisa se organizar melhor não redistribui as tarefas que continuam sob sua responsabilidade.
Outubro Rosa: informação para procurar o cuidado adequado
A mamografia ajuda na detecção precoce, mas não impede que o câncer apareça. No rastreamento, o exame é feito em pessoas sem sinais ou sintomas, conforme critérios de idade e risco. Uma alteração suspeita, por sua vez, exige investigação, mesmo fora da faixa etária dos exames de rotina. Essa diferença está nas orientações do INCA.
No SUS, o rastreamento mamográfico é recomendado para mulheres de 50 a 74 anos, a cada dois anos.
Mulheres entre 40 e 49 anos e acima de 74 anos, sem sinais ou sintomas suspeitos, também podem realizar mamografia por demanda, após orientação profissional sobre possíveis benefícios e riscos. Essa é a orientação da Nota Técnica nº 626/2025 do Ministério da Saúde. Situações de alto risco exigem acompanhamento individualizado.
Um caroço endurecido ou que esteja aumentando, mudanças na pele da mama, retração do mamilo ou saída espontânea de secreção, especialmente com sangue, precisam de avaliação. Esses sinais não confirmam, por si, um câncer. A orientação é procurar um serviço de saúde, em qualquer idade, sem esperar o próximo Outubro Rosa.
Conhecer as próprias mamas ajuda a perceber mudanças, mas não substitui a avaliação profissional nem a mamografia quando indicada. O INCA orienta observar as mamas sem exigir uma técnica de autoexame ou um calendário fixo.
Também quero lembrar que o cuidado não termina no dia do exame. É preciso receber o resultado e seguir a orientação da equipe, incluindo a investigação quando necessária. Garantir essa continuidade do atendimento é responsabilidade dos serviços de saúde.
Autocuidado precisa de apoio, não de culpa
Não quero que este texto se transforme em mais uma cobrança para uma mulher que já está tentando atender a tantas demandas. Ao falar de autocuidado, penso em condições reais: quem fica com a criança durante a consulta? Quem divide as tarefas quando a mãe precisa descansar?
A Organização Mundial da Saúde inclui no autocuidado práticas como alimentação adequada, atividade física, sono suficiente e convivência social. Também esclarece que o autocuidado complementa os serviços de saúde, sem substituí-los. Orientar uma mulher a cuidar de si não retira das instituições a responsabilidade pelo atendimento.

Na organização familiar, proponho alguns acordos que podem ajudar, respeitando as condições de cada casa e as necessidades de suporte da criança:
- Combinar previamente quem assumirá o cuidado do filho durante as consultas e os exames da mãe, com tempo para preparar essa pessoa.
- Compartilhar com outros responsáveis o conhecimento sobre a rotina, as formas de comunicação e os cuidados da criança, para que todas as informações não fiquem concentradas na mãe.
- Dividir tarefas domésticas e reservar períodos em que essa mulher possa descansar ou realizar atividades pessoais sem continuar responsável por todas as demandas.
- Incluir consultas, retornos e acompanhamento de resultados da mãe no planejamento da família, com responsabilidades compartilhadas.
Esses acordos precisam ser construídos com a mulher, sem entregar a ela mais uma lista para administrar sozinha. Quando a família não consegue oferecer suporte suficiente, recomendo conversar com os serviços de saúde e assistência social sobre os recursos disponíveis no território.
Às equipes que acompanham as crianças, faço um convite: perguntar pela saúde da mãe e escutar a resposta. O estudo de Vilanova e colaboradores recomenda identificar a sobrecarga materna na Atenção Primária à Saúde. Quero que essa mulher seja reconhecida como alguém que também precisa de atendimento, e não somente como acompanhante do filho.
Cuidando de Quem Cuida, para além de outubro
Na Casa do Corujinha, lidero o Cuidando de Quem Cuida, projeto complementar de suporte ao Corujinha Azul, nosso projeto principal. Enquanto o Corujinha Azul acompanha o desenvolvimento das crianças em articulação com famílias e escolas, o Cuidando de Quem Cuida direciona atenção às pessoas que sustentam essa rotina, principalmente às mães atípicas, sem se restringir a elas.
Com esse projeto, quero que mães e cuidadoras encontrem espaço para falar de si e sejam escutadas sem julgamento. A proposta inclui acolhimento, orientação, atividades de bem-estar e convivência, além da construção de redes de apoio. Desejo que os projetos pessoais dessas mulheres também encontrem lugar nas conversas.

Essa vontade tem relação com a minha própria história. Na infância, enfrentei situações de vulnerabilidade e encontrei no Circo Escola um espaço de acolhimento, pertencimento e expressão. Quando olho para esse período, penso no quanto fez diferença ter um lugar onde eu pudesse ser vista para além das dificuldades. Levo esse significado comigo ao olhar para outras famílias.
Minha trajetória passou pela formação profissional e por 16 anos de trabalho no SUS. Em 2014, fundei a Casa do Corujinha. Tenho muito carinho pelo que construímos e pelo lugar que a Casa tem na minha vida. Mas não quero contar essa história como se eu tivesse chegado até aqui sem precisar de ninguém.
Quero que minha história inspire outras mães, mas não quero ensinar que precisamos dar conta de tudo sozinhas. Ser vista como uma mulher que superou dificuldades não me torna incansável. Por trás do trabalho que vocês conhecem, existe uma mulher que também precisa descansar, acompanhar a própria saúde e receber apoio.
Quando digo que quem cuida também precisa de cuidado, eu me incluo. Preciso dirigir a mim a mesma atenção que defendo para outras mulheres.
Amo meus filhos e me dedico à Casa do Corujinha. Também quero ter saúde e tempo para viver outras partes da minha vida. É esse exemplo de cuidado que desejo cultivar, reconhecendo meus limites e compartilhando responsabilidades.
Os filhos crescem. A saúde da mãe não pode esperar
Quando penso no futuro dos meus filhos, quero que eles encontrem apoio e oportunidades de autonomia. Essa preocupação me faz olhar também para a minha saúde. Nas famílias em que o cuidado se prolonga por muitos anos, considero necessário preparar outras pessoas para participar da rotina antes que uma emergência torne isso inevitável.
Não quero usar o medo do que pode acontecer com os filhos para convencer uma mãe a se cuidar. Prefiro defender a construção de uma rede que compartilhe responsabilidades desde agora. E faço questão de dizer: a minha saúde tem valor por si mesma. A sua também. Nosso direito ao cuidado não depende de quanto conseguimos fazer por outras pessoas.
Neste Outubro Rosa, meu convite é transformar a preocupação em um acordo possível: organizar o apoio necessário para uma consulta, dividir uma tarefa que ficou concentrada na mãe ou conversar com a equipe de saúde sobre um cuidado adiado. Depois de outubro, esses acordos precisam continuar.
Cuidar durante o ano inteiro não significa repetir todos os exames anualmente. Significa manter o acompanhamento indicado e procurar atendimento diante de alterações, respeitando a periodicidade recomendada para cada situação. Para mim, também significa construir uma rotina em que o descanso e a vida pessoal da mãe não sejam sempre os primeiros compromissos cancelados.
Convido você a conhecer o Cuidando de Quem Cuida e conversar com a nossa equipe. Quero que essa conversa alcance quem precisa de apoio e também quem pode compartilhar o cuidado.
Referências para consulta
VILANOVA, Jakelinne Reis Sousa et al. Sobrecarga de mães com filhos diagnosticados com transtorno do espectro autista: estudo de método misto. Revista Gaúcha de Enfermagem, v. 43, e20210077, 2022. Texto completo em português na SciELO.
LUNA, Aislany Warlla Nunes et al. Percepções de mães de crianças com autismo sobre rede apoiadora e estratégias de cuidado consigo. Revista de Enfermagem da UFPI, v. 12, n. 1, e4284, 2023. Registro e resumo em português na Biblioteca Virtual em Saúde.
KIM, Ji-Hwan et al. Who cares for the caregivers? Health check-up participation among mothers caring for children with developmental disabilities in Korea: findings from the National Health Insurance Service database and a nationwide survey. BMC Health Services Research, 2026. Publicação antecipada, com texto completo em inglês. DOI: 10.1186/s12913-026-15767-6.
BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 626/2025-CGCAN/DECAN/SAES/MS. Orientações sobre acesso à mamografia e rastreamento no SUS.
INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. Detecção precoce do câncer de mama; Brasil: estimativa dos casos novos para 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Self-care for health and well-being. Atualizado em 3 de junho de 2026.
CASA DO CORUJINHA. Cuidando de Quem Cuida; Corujinha Azul; A idealizadora e fundadora. Páginas institucionais.
Orientações de saúde consultadas em 9 de outubro de 2026. Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação individual por um profissional de saúde.


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